O Museu Histórico Jacinto de Sousa reúne 1.335 peças catalogadas no inventário de 2009, distribuídas entre salas expositivas permanentes, a sala de maquetes e o corredor de fotografias — além de três espaços de circulação destinados a exposições temporárias.
Açude Cedro
A primeira obra hidráulica moderna da América do Sul
O Açude Cedro foi construído entre os anos de 1882 e 1906, iniciado ainda no Império e concluído já na República. Foi a primeira obra hidráulica moderna da América do Sul com parede em arco de alvenaria de pedra. O projeto foi uma iniciativa do governo imperial para combater os efeitos das secas, com o objetivo de armazenar água para abastecimento humano e irrigação.
A obra foi realizada pela Comissão Imperial de Açudes e Irrigação, que, a partir de 1943, passou a se chamar Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), órgão que até hoje é responsável pelo Açude.
Apesar de sua importância, o Açude Cedro sofre com o subdimensionamento de sua bacia hidrográfica e com a intermitência do riacho que o abastece. Em mais de 130 anos de existência, o açude sangrou apenas em seis ocasiões: 1924, 1925, 1974, 1975, 1986 e 1989. Em contrapartida, enfrentou secas severas nos anos de 1930, 1932, 1951, 1952, 1983, 1999, 2000 e 2016.
Hoje, por conta do baixo volume de água, o açude não é mais utilizado para abastecimento urbano — suas principais atividades são a pesca artesanal, o lazer e o turismo. Reconhecido por sua importância histórica e estética, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1984.
- Ferramentas utilizadas na construção da barragem
- Fotografias históricas do canteiro de obras (1884–1906)
- Túnel do açude e primeira sangria, em 1924
- Vista da parede com pilares, em 1928
- Pouso de hidroavião sobre o açude
- Pinturas da paisagem dos monólitos e do açude, de autoria do artista Isidório
Cotidiano de Quixadá
Objetos da vida comum entre os séculos XVIII e XX
A sala Cotidiano de Quixadá reúne objetos que narram a vida cotidiana do município desde seus tempos mais antigos, ainda marcados por uma realidade predominantemente rural. O acervo inclui peças em madeira, ferro, barro, porcelana e couro, datadas dos séculos XVIII, XIX e XX.
Alguns desses objetos estão diretamente ligados à memória da escravidão no Ceará, como telhas e tijolos produzidos artesanalmente entre 1800 e 1830, provavelmente moldados por mãos escravizadas. Destacam-se ainda peças simbólicas como a chave da antiga Fazenda Santa Maria, datada de 1800, e pregos utilizados na construção da Cadeia Pública de Quixadá, forjados em 1890.
Há objetos representativos das atividades de agricultura e pecuária, como um gancho metálico que, acoplado a uma vara, era utilizado para assar mandacaru, chique-chique e palma, servindo de ração para o gado em períodos de seca. Também estão presentes bridões e tribos de couro usados na condução de cavalos, principal meio de transporte da época.
A exposição contempla ainda utensílios domésticos antigos, como caldeirões de ferro de vários tamanhos — do final do século XIX ao início do século XX —, moinhos manuais para moer café e milho, e conjuntos de porcelana utilizados para servir café e chá nas casas-grandes das fazendas. Complementam a sala objetos de uso cotidiano como lampiões e lamparinas, além de ferros de passar roupas, como o pesado ferrobraz, chaleiras e um ferro maciço.
- Primeiro sino de mão da Escola José Jucá, instituição fundada em 1923
- Chave da antiga Fazenda Santa Maria, de 1800
- Amolador de navalhas pertencente ao Sr. Alencar e Silva
- Tesoura de 1910, de uma das primeiras costureiras de Quixadá
- Balança com bandeja usada por quatro décadas pelo Sr. Ivo Holanda
Jacinto de Sousa
Um dos maiores expoentes da arte popular cearense
A sala dedicada a Jacinto de Sousa homenageia um dos maiores expoentes da arte popular cearense, cuja trajetória foi marcada pela sensibilidade, simplicidade e profundo compromisso com as causas sociais. Nascido em Quixadá em 3 de julho de 1896 e falecido na mesma cidade em 29 de janeiro de 1941, desenvolveu de forma autodidata suas próprias técnicas nas áreas da fotografia, pintura e escultura.
Entre suas esculturas, destaca-se a produção de figuras regionais talhadas em madeira com canivete, técnica que exige precisão e delicadeza. Do seu modesto ateliê saíram obras destinadas a espaços públicos, como o busto da Princesa Isabel, em Redenção, e o Monumento ao Trabalhador Livre, na Praça da Estação, em Quixadá.
- Cristo Crucificado, uma de suas peças mais emblemáticas, em exposição permanente
- Figuras regionais talhadas em madeira com canivete
Aderaldo Ferreira de Araújo
Cego Aderaldo, ícone da poesia oral e do repente nordestino
A sala homenageia Aderaldo Ferreira de Araújo, conhecido como Cego Aderaldo, um dos maiores ícones da poesia oral e do repente nordestino. Nascido em 24 de junho de 1878, no Crato/CE, era filho de Joaquim Rufino de Araújo, alfaiate, e Maria Olímpia de Araújo. Ainda pequeno, mudou-se com a família para Quixadá, onde cresceu e começou sua trajetória de vida e arte.
Aos 18 anos, sofreu duas grandes perdas: o falecimento do pai, em 10 de março de 1896, seguido, quinze dias depois, pela perda da visão. Foi através da arte que encontrou seu caminho: recebeu de presente um cavaquinho e, incentivado por sua mãe, passou a cantar para sobreviver. Em um dos momentos mais difíceis de sua vida, perdeu também a mãe, sem ter dinheiro sequer para o enterro, e teve que cantar para conseguir recursos e sepultá-la dignamente.
Percorreu várias cidades como Baturité, Canindé, Crato, Fortaleza, Ubajara, Viçosa e Piauí. Em 1916, protagonizou a histórica peleja com Zé Pretinho, uma das mais célebres do repente nordestino. Durante a seca de 1915, viajou para o Pará e o Amazonas, onde conheceu o índio Azul Plim e cantou as dores da terra seca e a saudade do Ceará. Ao retornar, visitou Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. Também teve um inusitado encontro com Lampião e homenageou ambos em seus versos.
Entre 1923 e 1931, percorreu os sertões já reconhecido e aclamado como grande repentista. Inovou ao adquirir um gramofone e, em 1933, passou a atuar também como exibidor de cinema. Mais tarde, fixou-se em Fortaleza. Criou 26 filhos adotivos, que o acompanhavam em suas viagens e apresentações, e faleceu em 29 de junho de 1967, deixando um legado cultural inestimável.
- O violão de Cego Aderaldo, testemunha silenciosa de sua história
- Exemplar da primeira edição do livro autobiográfico "Eu Sou Cego Aderaldo"
- Um quadro pintado por Jacinto de Sousa
- Fotografias da vida e das pessoas que o cercaram, como Mário de Andrade e seus filhos adotivos
- Recortes de jornais da época e um baú de madeira e couro
Quixadá Antigo em Maquetes
Sete maquetes de Júlio César e Osmar Henrique, 1995
Esta sala reúne um valioso conjunto de sete maquetes, confeccionadas pelos artistas Júlio César e Osmar Henrique no ano de 1995. As obras retratam a paisagem urbana e os principais cenários históricos de Quixadá, desde a sua fundação no século XIX até o final dos anos 1990. Cada maquete resgata, com detalhes, elementos arquitetônicos, sociais e culturais de um tempo que moldou a identidade local.
- Sítio Quixadá — as construções originais do núcleo urbano: a casa de José de Barros, o curral e a capela, edificados nas proximidades do rio Sitiá no final do século XIX
- Fazenda Califórnia — casarão erguido no século XIX, em formato de letra H, com 52 portas e 23 janelas; a fazenda desenvolveu-se com o trabalho de pessoas escravizadas
- Estação Ferroviária de Quixadá — inclui o famoso bondinho, que fazia o trajeto da estação ao Açude Cedro puxado por dois animais, em serviço até 1932
- Prefeitura Municipal de Quixadá — o prédio original, construído em 1896 na gestão do prefeito Alfredo Teixeira Mendes e demolido em 1963, na administração do prefeito José Banquete
- Ruas Basílio Pinto e Tabelião Enéas — trecho histórico com a antiga Casa Soares, o prédio da Aliança Artística Proletária e os trilhos do bondinho
- FECLESC — a Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central, importante polo de formação acadêmica e cultural
- Praça José de Barros — a praça em sua versão após a reforma da década de 1990
Política e Memória
Imagens, sons e escrita da história quixadaense
Esta sala apresenta a história de Quixadá por meio de imagens, sons e formas de comunicação visual e escrita, reunindo elementos de diferentes épocas e temas. Fotografias, livros, manuscritos, impressos antigos, aparelhos sonoros, fonográficos, cinematográficos e de impressão relembram pessoas, músicas, o cinema, o esporte e a política no município.
Aliança Artística e Proletária — fundada em 19 de junho de 1921, a associação tinha como propósito defender os interesses da classe operária e permaneceu ativa até a década de 1960. Além de valorizar o trabalhador, patrocinava ações voltadas para a educação, a cultura e a preservação do patrimônio de Quixadá. Uma de suas grandes realizações foi a edificação do Monumento ao Trabalhador Livre, na Praça da Estação.
Escravizados — objetos reunidos neste espaço relembram a história da escravidão em Quixadá. Telhas e tijolos do século XIX, utilizados na construção das casas de fazenda, compõem o acervo, além do Livro de Registro dos Escravizados de Quixadá (1874), que lista pessoas libertadas pelo Fundo de Emancipação. Também fazem parte da coleção uma corrente usada para aprisionamento e um alicate utilizado para extração de dentes.
- Projetor de cinema que pertenceu ao Cineara e ao Cine São José, cinemas que funcionaram em Quixadá da década de 1950 até 1989
- Fotografias dos membros fundadores da Aliança e imagens de reuniões em 1965
- Livro de atas, estatuto, documentos manuscritos e carteirinha de associado
- Livro de Registro dos Escravizados de Quixadá, de 1874
Quixadá Antigo em Fotografias
Do fim do século XIX ao fim do século XX
As fotografias desta sala registram momentos da história de Quixadá desde o final do século XIX até o final do século XX. Muitas delas são de autoria de Jacinto de Sousa, como a imagem de 1891 que mostra a primeira composição de passageiros chegando à estação de trem da cidade, com a comitiva do então governador da província, General Clarindo de Queirós, na inauguração oficial da estação em 7 de setembro de 1891.
Outras imagens destacam personagens que marcaram a história local, como o Dr. Batista de Queiroz, conceituado médico quixadaense, e o Coronel Nanã, nascido em 1º de fevereiro de 1841 e falecido em 26 de abril de 1920, reconhecido como um dos primeiros libertadores de escravizados da região, em sua Fazenda Olivença (antiga Menescal).
- 7 de setembro de 1922 — inauguração do Monumento ao Trabalhador, na antiga Praça Nogueira Acioli (hoje Praça José Marques da Silva), obra de Jacinto de Sousa
- 1915 — flagelados da seca, provavelmente aguardando a distribuição de alimentos
- 1930 — desfile do batalhão do Tiro de Guerra, antes do embarque para se juntar à Revolução de 1930
- 24 de setembro de 1934 — celebração da missa de inauguração da cruz na Pedra do Cruzeiro
- 1978 — lançamento da pedra fundamental da FECLESC, a primeira instituição pública de ensino superior em Quixadá
Acervo digital em construção
A catalogação peça a peça está sendo preparada para consulta pública on-line. Em breve, cada item deste acervo poderá ser pesquisado por sala, material, período e tema.